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Discurso de posse

Excelentíssimo senhor Merval Pereira, digníssimo presidente da Academia Brasileira de Letras, em nome de quem saúdo todas as autoridades aqui presentes.

Minha querida Lúcia Azevedo. Você que há trinta anos me ama, me tolera, me suporta. Mas, sobretudo, dialoga comigo. Que me mostra um mundo novo, que antes não era o meu.

Minha adorada Violeta Sarti Caldeira, filha e parceira. Raul Guilherme Ramos de Andrade e minha neta Cecília, em Curitiba. Meu amado filho Júlio Sarti Caldeira, que nos assiste pela internet de London, Ontario. Minha cara Cynthia Sarti, mãe de ambos. Pedro e Irene Azevedo Magalhães, também meus filhos.

Meus irmãos: Teresa, Eduardo e Marina Pires do Rio Caldeira. Comigo, testemunhos vivos da obra de nossos maiores. E quem os representa aqui hoje é Thomaz Souto Corrêa, o decano da família.

Meu irmão Paulo Henrique Cardoso, família de escolha, junto com a Luciana e a Bia, mais os pais, Fernando Henrique Cardoso e a muito querida e saudosa Ruth Cardoso.

Meus primos, meus sobrinhos, minha grei. Meus amigos de toda a vida, especialmente aqueles que se dispuseram a ajudar para organizar essa cerimônia, dar a ela o sentido cerimonial sobre o qual vou falar. Todo vocês são símbolos das belas trocas íntimas, aquelas que nos comunicam afetivamente, e fundam as trocas nas relações sociais com a rede maior do mundo.

Senhoras e senhores aqui presentes.

Como vocês podem ter notado, essa saudação inicial empregou dois registros linguísticos opostos para tratar as pessoas. Um, mencionado de maneira bem breve, é aquele da linguagem muito formal, o Excelentíssimo que designa o tratamento de respeito com a instituição, com o mundo da Academia Brasileira de Letras. Outro, informal e afetivo, foi bem mais amplamente empregado, para falar da vida que se leva na família e com os amigos.

Essa desproporção entre as duas formas de uso da linguagem se explica. Estou aqui dando ênfase inicial ao afetivo, porque uma das finalidades deste discurso é mostrar o momento em que estou numa caminhada. Um início de movimento. E tal movimento me leva na direção de cruzar a fronteira entre esses dois territórios muito distintos, simbolizados nas formas de tratamento. E é este umbral entre dois mundos que vou atravessando neste exato momento, enquanto falo dele.

Há um tempo de antes. Vivi no mundo familiar e afetivo, até ser eleito para esta Academia Brasileira de Letras. Eleito, abriu-se um segundo momento. Ganhei o direito de mandar confeccionar este fardão, roupa de alta formalidade que uso pela primeira vez – e que todos os acadêmicos igualmente vestem nas cerimônias de posse, para receber o eleito. Tenho já a marca cerimonial da vestimenta, mas ainda não se passou o momento cerimonial da posse, que me sagrará como membro pleno desta Academia.

Portanto, estou nos procedimentos finais do trânsito entre uma situação e outra. Dá insegurança. Para vencê-la e ganhar a coragem necessária para realizar a passagem para um universo novo e desconhecido para mim, foi importante buscar ajuda, ter um guia. Minha primeira intuição era a de fazer esse discurso com base nos marcos de contraste entre o registro linguístico oral e aqueles do discurso escrito formal na realidade brasileira.

Isso mudou. A marcação deste meu caminho nessas palavras foi muito ajudada numa conversa com minha irmã, Teresa Pires do Rio Caldeira. Ela é antropóloga, professora da Universidade de Berkeley. Conversando sobre minha situação e minhas ideias para discursar, ouvi uma sugestão: “Você precisa ler o Gennep”. Sábia Teresa.

Fui ler. Arnold van Gennep publicou um livro chamado “Os Ritos de Passagem”, em 1909. É daqueles clássicos de tirar o fôlego, analisando um fenômeno que define como comum a todos os povos, da pré-história até hoje. Vejam como ele mostra o tema do livro:

Reuni aqui os padrões cerimoniais que marcam a passagem de uma situação para outra ou de um mundo cósmico ou social para outro”1.

Então melhorou. Temos uma situação inicial num mundo, uma chegada a um outro mundo – e, sobretudo, uma passagem que não é exatamente um acidente, mas antes aquilo que dá significado a todo o processo. Tão importante que merece um rito especial. E rito tão especial que vale para um momento social como esse que estamos agora vivendo neste salão, mas também para marcar um evento cósmico, na vida desta Academia. Este último aspecto é relevante.

Os ritos de passagem cósmicos seriam, nas palavras de Gannep, “cerimônias humanas para marcar mudanças celestiais como as passagens de uma estação para outra, como no caso dos festivais de solstícios e equinócios, de um mês para outro, como nas cerimônias da lua cheia, de um ano para outro, como nas comemorações do Ano Novo”2.

As cerimônias de passagem sociais marcariam outro tipo de evento: “a existência humana se constrói numa sucessão de estágios de começos e fins: nascimento, puberdade social, casamento, pertencimento a grupos de especialização ocupacional, morte. Para cada um desses eventos há cerimônias cuja finalidade essencial é permitir ao indivíduo passar de uma posição definida para outra”3.

O que as cerimônias cósmicas e as sociais teriam em comum, a ponto de acontecerem neste único ritual de hoje? Basicamente uma estrutura que ele definiu dessa forma:

Um Rito de Passagem teoricamente inclui uma série de ritos preliminares, os ritos de separação, uma série de ritos liminares, os denominados ritos de transição, e uma série de ritos posteriores, denominados ritos de incorporação”4.

Então vamos lá. A cerimônia de hoje começou comigo devidamente separado numa salinha, como vocês viram. Três pessoas, representando as três fases do rito, foram me buscar lá e me trouxeram até aqui.

Já dá para desconfiar, né. Fui retirado de uma situação para ser inserido em outra. Vários ritos foram marcando o caminho para fora do mundo da intimidade familiar e do convívio informal. Todos eles foram me levando ao ponto de estar completamente separado na salinha, pronto para ser chamado e entrar no salão. A saudação formal ao presidente, nas primeiras palavras de meu discurso, marca o início da parte liminar do rito de passagem, aquela na qual me despeço de uma situação anterior, da qual fui antes devidamente isolado.

Para adiantar um pouco o que vem pela frente, informo que essa cerimônia terá três partes. Tudo dando certo, ao final dessa segunda fase atravesso o portal e, na terceira, apareço inserido em nova posição.

Então temos: três pessoas, três fases rituais, três fases nessa cerimônia. Vocês ainda acreditam em coincidência? Então.

Aprendendo tudo isso, resolvi deixar de lado a ideia inicial. Resolvi fazer esse discurso em três partes. Estamos na primeira fase dele, aquela em que falo de quem fui até ser separado dos meus queridos parentes e amigos e vestido nesse fardão, que marca claramente o grupo no qual me integrarei depois da passagem.

Como, além de tudo, a instituição tem um nome com três palavras, denominarei essa primeira parte de meu discurso de fase das Letras. Nela domina a linguagem informal, afetiva. O registro familiar.

As letras do alfabeto, chegaram a mim mais da família de meu pai, Jorge Alberto Fonseca Caldeira. Ali sobravam professoras, por razões daqueles tempos. Meu bisavô paterno, Joaquim Manuel Pacheco da Fonseca, queria muito um filho homem. O caminho foi longo, é só ir contando. Teve Dalmácia, Alzira, Hermínia, Ofélia, Evelina, Ninota, Maria. Sete mulheres, até chegarem Joaquim Manoel o, Tio Quincas, e o Peró.

Eram os dias D’El Rey, mas Joaquim Manoel era republicano a ponto de assinar a Convenção de Itu, sua cidade natal. Encarou a situação numérica familiar de modo pouco usual para o momento: vendeu a fazenda Pedra Azul, mudou para a cidade e colocou todas as filhas para estudarem na Escola Normal.

Sete professoras, sendo tia Ofélia Fonseca a fundadora de uma escola que existe até hoje em São Paulo e onde minha avó, Evelina, ensinou. Ela também educou com grande esmero seu único filho, Jorge Alberto Fonseca Caldeira. Começou a se destacar ainda estudantes, com seguidos primeiros lugares nas cadeiras da Faculdade de Medicina da USP.

Nessa situação conheceu Carmen Pires do Rio na praia de Santos, em frente da rua Jorge Tibiriçá, em julho de 1946. Ele tinha 18 anos, e ela, 23. O namoro começou em uma semana. Ela era filha de Rodrigo Pires do Rio Filho, fazendeiro em Aparecida do Norte e empresário em Santos, e de Odila Souto Corrêa Pires do Rio, que conheceu em Santos quando ela era aluna de pintura de Benedito Calixto.

Cresci entre esses dois mundos. A vida das letras escritas se fez em São Paulo. Escolas fortes, muitos livros em casa – e mais o incentivo permanente da compra imediata de qualquer forma de suporte para leitura, dos quadrinhos aos clássicos. Estantes cheias por toda a casa. Uma mãe e um pai leitores. Com tal nutrição, os quatro filhos escreveriam livros e teses.

Mas recebi educação informal, educação pela palavra empenhada verbalmente e pelo exemplo, na fazenda. Meu avô Rodrigo falava essa linguagem do exemplo o tempo todo, a cada gesto. Por exemplo, não se incomodava dar dinheiro para os netos que pedissem – desde que trabalhassem exemplarmente para merecer. Entre as tarefas rentáveis que oferecia para um menino com menos de dez anos ganhar uns trocados, estava aquela de subir na charrete de manhã e passar o dia como auxiliar do entregador de leite na cidade.

Esse entregador estacionava na porta da casa dos clientes da fazenda. Vinha quase sempre uma mulher com um litro de vidro. Cabia a mim baixar da boleia, abrir o latão, encher uma caneca de exato um litro, transferir para as vasilhas das clientes. Para realizar cem operações diárias dessas, corria as ruas de Aparecida do Norte, serpenteando o tempo todo entre romeiros mudos, vindos de todo lado. Volta e meia cruzava algum arrastando ajoelhado uma cruz imensa. Vinha de não sei quantos quilômetros, chegava com os joelhos sangrando. E com os olhos brilhantes voltados para o alto do morro, a basílica velha, a milagrosa Nossa Senhora da Aparecida. A basílica nova estava sendo construída num pedaço de terra que meu avô vendera para a Igreja.

Nunca me esqueci do silêncio, da compenetração, do olhar da fé. Das multidões que seguiam esse padrão. Dos brasileiros que não eram tão letrados como eu. Mas que se expressavam com eloquência na linguagem do exemplo, em silêncio, na mudez da fé.

Aprendia essa linguagem sem palavras.

Meu avô morreu, a fazenda foi vendida, minha vida ficou em São Paulo. E foi tomada por um destino num único dia.

Em 1974, com 18 anos, num domingo de setembro, estava em Ibiúna. Com o Paulo Henrique Cardoso, meu colega de Colégio Equipe. Passando um fim de semana na casa de campo dos pais dele, uma certa Ruth e um tal Fernando Henrique Cardoso. Começava a ganhar uma segunda família.

Fomos almoçar na casa do vizinho, Pedro Paulo Poppovic. A certa altura ele fez troça com os vários adolescentes ao redor, dizendo que ninguém queria trabalhar. Retruquei que ninguém dava oportunidade para um estudante de primeiro ano de filosofia.

Como meu avô, o Pedro Paulo Poppovic gostava de resolver assuntos com exemplos. Foi bem direto: “Apareça amanhã às nove horas na Abril Cultural, na rua do Curtume. Você vai fazer um teste de emprego”.

Fui. O teste consistia em fazer pesquisa e escrever cinco verbetas para a Enciclopédia do Estudante: Cervídeos, Faraday, Farol, Fascismo, Fermi. Quando meu pai morreu, em 2019, encontrei o recibo de meu primeiro pagamento como homem de letras em seu criado-mudo. Ele guardou o que eu não soubera guardar.

Tive o emprego. Foram sete anos de verbetes escritos diariamente. De lá para cá são 48 anos de letras anônimas, repetidas todos os dias. Aprender um assunto desconhecido com pesquisa, escrever para um terceiro. Comunicar. Marginalmente, um conhecimento enciclopédico foi sendo acumulado, transformando-me no especialista em tudo e nada que chateia a família com suas ideias a respeito de qualquer assunto.

A obra de autor, o texto assinado, foi se destacando lentamente do dia a dia do ofício anônimo. E surgiu a partir de um convívio que hoje me parece semelhante com aquele dos romeiros. Quando tinha 20 anos, fui chamado para fazer uma coleção de discos e fascículos chamada História da Música Popular Brasileira. Bom trabalho. Passei três anos convivendo com todos os músicos importantes desse país. Entrevistei pessoalmente Donga, Mano Décio da Viola, Nelson Cavaquinho, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Milton Nascimento, por aí vai.

Naqueles meados dos anos 1970, aprender com o exemplo pessoal, o convívio na entrevista, era praticamente o único caminho viável para escrever sobre música popular brasileira. A biblioteca inteira sobre o assunto, incluídos os livros raros de sebo que comprei, cabia em duas prateleiras na estante da sala. Para além disso, tudo dependia muito da hemeroteca de Almirante – e dele sempre presente na sala do Museu da Imagem e do Som daqui do Rio de Janeiro, com seu humor impagável.

Como vocês podem ver, muitas cenas marcantes em minha memória de escritor vieram do exemplo. Como aquelas de certo dia em que conheci Ismael Silva, num boteco infecto em Santo Cristo. Ovos cozidos pintados, estranhos pedaços de algo que poderia ser carne boiando em algo que parecia óleo, sujeira de semanas no chão.

Ismael Silva estava no balcão. Vestia um terno de linho branco impecável, camisa laranja, gravata branca. Assim saiu muito elegante na foto de capa do fascículo – mas tal foto, no entanto, não mostrava a calça com costura aberta abaixo dos joelhos, para dar espaço aos pés com elefantíase, nem as sandálias rotas.

Nessas condições ambientais pouco propícias, o entrevistado sabia-se Ismael Silva, o Bamba do Estácio. O fundador da primeira escola de samba. O parceiro de Noel Rosa. O homem de quem Chico Viola dependia para fazer sucesso. Um autor. Uma pessoa importante para o Brasil. Escrevi sobre ele com o respeito que merecia, lembrando dos romeiros que via em minha infância e esquecendo o boteco infecto.

Fui aprendendo assim a lidar com os percalços para escrever sobre cultura popular em ambiente de baixo registro escrito. A situação foi mais dependente ainda do exemplo pessoal quando a Editora Globo me contratou para fazer uma História da Telenovela no Brasil. Aí o contraste era medonho. Centenas de milhões de pessoas viam novela na televisão todos os dias. Mas não havia nenhum – repito – nenhum, livro com uma história sistemática do assunto. Para escrever a enciclopédia, tudo dependia da memória dos atores e das equipes, além da boa vontade e esforço do saudoso Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Artur da Távola.

Tendo a obrigação profissional de arrumar de forma organizada e enciclopédica essas realidades gigantescas da cultura popular brasileira, comecei muito lentamente o trabalho de escrever aquilo que aprendi pelo exemplo numa obra pessoal. As primeiras assinaturas de meu nome surgiram em pequenos artigos de jornais da então chamada imprensa nanica, sempre sobre música popular. O primeiro livro veio quando já tinha oito anos de profissão e 26 de idade, uma biografia de Noel Rosa.

Dessa obra não falo mais neste primeiro terço de cerimônia, a não ser para notar que ela foi se acumulando, até se tornar densa o suficiente para ser percebida como relevante pelos membros desta Academia – portanto até o ponto de ser escolhido e estar aqui fazendo o rito da passagem dessa obra, até agora apenas pessoal, para a instituição que me recebe.

O que quer dizer isso? Eleito, ganho o direito de colocar meus 16 livros individuais nas estantes coletivas da biblioteca dos acadêmicos – onde já estão 15.424 livros, escritos por aqueles que me antecederam nas 40 cadeiras.

Nesse novo contexto, de obra que será parte mínima da produção da Academia, ela vai ser tratada pelos que estão já na casa, no discurso de recepção que acontecerá na terceira fase dessa cerimônia. Chega, portanto, a hora de encerrar a primeira fase do discurso, a das Letras do passado pessoal, e ir adiante no cruzamento do limiar, passando para a segunda parte, aquela que denominei Academia.

Aqui se encerra o discurso pessoal e social, pois a finalidade desta cerimônia ritual não é apenas dessa natureza. Minha aceitação na cadeira se destina a uma recomposição cósmica, a reposição do vazio criado com a morte de Lygia Fagundes Telles. A refazer um equilíbrio perdido. Este o limiar que atravesso. E, para atravessar o limiar, entro na segunda fase do discurso, aquela de mostrar o fio cósmico que liga os ocupantes da cadeira 16.

Portanto, falo agora como membro que vou ser da instituição, seguindo as regras rituais claramente estabelecidas para seu reequilíbrio cósmico. A primeira regra é a da candidatura para a eleição, que criou o liame inicial com esse processo formal. Vale a pena falar um pouco desse primeiro passo de meu percurso até aqui. Na Academia Brasileira de Letras só entra quem se candidata. Por outro lado, os acadêmicos só podem votar em quem se candidata. E só é eleito quem consegue a maioria dos votos.

Esse processo democrático muitas vezes é mal-entendido. Cansei de ganhar parabéns por minha “indicação” para a vaga, sinal evidente da força da ideia do apadrinhamento na política e na vida brasileira. A verdade é que a única porta de entrada para esse ritual é aquela da escolha democrática pelos membros, que julgam sobre o mérito na recomposição.

Todos os atos a seguir da eleição também seguem normas impessoais. Esta segunda parte de meu discurso é regulamentada. Diz o estatuto que aquele que chega deve nomear a linhagem dos que o antecederam na cadeira, o que faço agora falando de meus antecessores na cadeira 16.

Essa linhagem começa com um patrono de outros tempos. Em meu caso, um patrono nascido no dia 20 de dezembro de 1636. Sendo este um ritual não apenas social, mas também de reposição cósmica, não posso deixar de admirar a coincidência desta data com aquela de meu nascimento.

O nome deste patrono é Gregório de Matos. A escolha foi uma atitude muito incomum – como é incomum tudo que se refere a ele, a começar pelo percurso de sua obra. Francisco Topa, professor da universidade do Porto começa assim um artigo publicado recentemente na internet sobre seu trabalho de fixar a obra do poeta: “Gregório de Matos continua a ver a sua obra envolta em alguma polêmica e a ser objeto de leituras desencontradas. Em grande medida isso tem que ver com o fato de, mais de três séculos depois da sua morte, não dispormos ainda de uma edição crítica que tenha resolvido os numerosíssimos problemas autorais e textuais que rodeiam a sua poesia”.5

As razões para tal situação são afins com minha experiência com cultura oral. Gregório de Matos morreu em 1696. Não tinha livros publicados. Escrevia, mas muito de sua obra eram canções que ele cantava improvisando na viola, produção oral, só depois registada na forma escrita por admiradores de sua arte. Alguns leitores mais abastados e sistemáticos foram juntando essas anotações esparsas em manuscritos encadernados. Apenas no século 19 uns poucos poemas começaram a ser impressos em antologias.

Passaram-se quase dois séculos, até 1882, quando Alfredo Vale Cabral lançou sua “Obra Poética de Gregório de Mattos Guerra”. Nesse longo intervalo, apenas uns poucos poemas haviam sido impressos em antologias. Cabral rompeu o véu de silêncio editorial alegando razões importantes. Gregório de Mattos seria “um dos mais valentes poetas das literaturas de dois povos e da língua portuguesa falada no Brasil”. Como se vê, mesmo vivendo no romântico século 19, ele tinha noção clara de que a literatura servia a dois povos, mas que Gregório tinha papel importante no registro próprio e diferenciado da língua falada no Brasil. Nesse sentido, bem especificado tanto do ponto de vista da história como da literatura, o grande valor literário está em traduzir uma língua falada para uma forma diferenciada, que os admiradores levavam para a escrita, da cultura oral para a literária.

Outra sábia constatação de Cabral diz respeito à combinação entre o público para o qual as obras eram feitas com o instrumento que permitia o projeto: “Gregório de Mattos fazia timbre de destinar suas obras não apenas aos que cultivam a mais elevada literatura como para as turbas populares, tanto que se aprazia de viver entre músicos e folgazões”. A canção seria a mediadora entre oral e escrito, capaz de permitir o posterior registro escrito de uma nova fala.

Além disso, Veiga Cabral sabia reconhecer que o popular de uma época pode ser o maldito de outra: “Pena que o poeta caía ainda em frases e termos pouco decorosos, que não podem passar pelos olhos de todos e são obrigados a ficar inéditos”.

A ruptura do véu de silêncio, assim explicada, ganhou logo uma grande ajuda. Tristão de Alencar Araripe Júnior, o fundador da cadeira 16, fez bem mais que escolher Gregório de Matos como patrono. A bem dizer, seu gesto foi o grande responsável por iniciar o movimento que levou essa obra do quase anonimato diretamente para o padrão canônico na literatura brasileira – um tema que será retomado ao longo deste discurso, ordenado conforme os momentos do rito.

Retomando a exposição da linhagem na cadeira. Araripe Júnior nasceu em Fortaleza, no ano de 1848. Em 1886, publicou um ensaio intitulado “Literatura Brasileira”. Ele vai procurar o surgimento de “brasileira” no século 16, mas com uma consciência aguda do que estava fazendo: “É evidente que nesse século tem o eixo na metrópole. Não se trata propriamente de história do Brasil, mas de Portugal; e como a nossa é uma história particular, — especial, — o que se conclui é que seremos obrigados a abandonar as influências gerais conhecidas, ou indicá-las apenas, para acompanhar o fator que, durante aquele tempo, mais concorreu para dar cor à vida no Brasil”6.

Esse fator distintivo, essa cor local, ele vai achar nos relatos linguísticos de uma experiência de vida fixada em diversos corpos documentais: “No século 16, portanto, o estudo deve limitar-se à ação catalítica exercida pela nova terra na quimificação da psique do colono. E. cumpre-me ponderar que o meio físico não é estudado aqui como influência pré-histórica, o que seria o maior dos absurdos, mas como influência e determinante de ordem psicológica, mas de um valor tão grande, que chega a assombrar o observador, por sua obra de neutralizarão temporária de hábitos de raça, princípios de educação, ideias religiosas, de tudo. enfim, quanto pode constituir o pecúlio de um povo”7.

Ele vai definir o termo “brasileira”, o novo pecúlio de um povo, com uma palavra marcante, fruto de uma experiência humana igualmente forte: “Qual foi o sentimento que se gerou ao português, logo que se sentiu abandonado às suas próprias forças no solo americano? Qual a nova direção que tomaram as suas faculdades estéticas em consequência dessa queda psíquica? A esse fenômeno, que se acentua a cada passo da vida aventureira do século 16, poder-se-ia dar o nome de obnubilação brasílica e, sem dúvida, sobre ele basear-se-á toda a teórica histórica daquela época indecisa. Eis o assunto exclusivo que servirá de texto à história literária do nosso primeiro século”8.

Obnubilação. Termo incomum, assim definido num dicionário:” Estado de perturbação da consciência, caracterizado por ofuscação da vista e obscurecimento do pensamento”.

Noto aqui uma coincidência dos estágios descritos nessa conceituação de Araripe Júnior com aqueles que Gennep empregou na construir a definição de “rito de passagem”: retirada de uma realidade, travessia de um limiar, inserção em outra realidade, definiu Gennep. Mudança de espaço, perda de uma consciência, criação de outra, na estrutura homóloga de Araripe Júnior.

Bastam esses trechos para entendermos claramente que Araripe Júnior manejava as diferenças de significado de “nosso brasileiro” de um modo muito sofisticado, separando claramente os campos da língua portuguesa, da história social e da literatura na construção de seu conceito. Além disso datava claramente o século 16 como o tempo de validade dessa cor local.

Essa precisão de objetivos marcou um plano. Numa nota intitulada “A língua de Gregório de Matos”, ele anunciou: “Esse assunto será o objeto de uma monografia especial, tendo por limites o século 17 e a influência exercida pelo poeta baiano nas modificações do português no Brasil. Nessa monografia ocupar-me-ei não só do fenômeno linguístico, mas também farei uma tentativa sobre os ritmos populares e sua influência na sintaxe”9.

Em 1893, ele publicou o ensaio “Gregório de Matos”. Se o sentido de “obnubilação” era essencialmente aquele da dissolução de uma consciência frente a uma realidade desconhecida, tendo como foco o século 16, o esforço para iluminar a obra do poeta do século 17 será aquele de mostrar a construção de uma consciência nova, de quem já atravessou o limiar e foi reinserido em outra situação. Já não mais aquela do europeu lançado em terra desconhecida, mas agora de um ser que funda a literatura brasileira – no sentido preciso de expressão literária de uma realidade própria da terra, sem viés administrativo ou, muito menos, de antecipação da ordem nacional.

Para entender melhor o argumento do crítico talvez valha a pena nos guiarmos pelo mote de um poema de Gregório de Matos definindo a Bahia, apesar de conter palavras ainda hoje fortes para os ouvidos de hoje, século e meio depois da admoestação de Veiga Cabral:

De dous efes se compõem essa cidade da Bahia. Um, furtar, outro, foder”.

Para que haja o furtar é preciso riqueza. Riqueza produzida por escravos, índios e africanos. Mas apropriada por senhores, que viviam de um modo que Capistrano descreve dessa forma: “Nestes tempos de fartura, em que os ricos da Bahia não dispensavam os luxuosos palanquins da Índia, os serviços de prata, os cavalos de preço, ajaezados de guiões e selins de ouro, além de sedas e damascos para suas mulheres. Um viver morno e delicioso”10.

Havendo riqueza, havia o furtar: “Caiu sobre a Bahia uma verdadeira praga de letrados, advogados e rábulas, os quais, embebedados pela riqueza da terra, tornaram-se mais audazes do que os cartagineses, mais cruéis do que os antigos piratas”11.

Tudo isso era interligado pelo foder: “a gente da terra vivia em pecado mortal e nenhum havia que deixasse de ter muitas negras das quais se enchiam de filhos. (...) Nesse ninho de volúpia gerou-se uma raça de mestiços, eloquente, apaixonada e um tanto cheia de paradoxos nos costumes, a qual, mestiça no sangue, por sua vez encarregou-se de mestiçar as ideias, os sentimentos e até a política dos brancos dominadores da terra”12.

O furtar e o foder constituíram uma realidade social própria brasileira, uma realidade social que não era mais nem a lisboeta, nem a tupi, nem a africana. Essa realidade social bem fazia jus a um gentílico que marcasse sua identidade única. É dos tempos de Gregório de Matos o início do emprego de “brasílico” e “brasileiro” com tal propósito.

A construção propriamente linguística, que marca a originalidade literária do registro escrito dessa realidade já brasileira, é claramente particularizada por Araripe Júnior.: “Gregório de Matos é o Homero do lundu, que aperfeiçoou nos engenhos do Recôncavo, ao som da célebre viola fabricada por suas próprias mãos. Extraiu essa forma literária do folclore brasileiro”13.

O resultado estético seria inovador e excepcional: “O lundu excede à seguidilha espanhola, com a qual guarda parentesco, e a dança do ventre oriental. Sua maior originalidade consiste no ritmo resultante da luta entre o compasso quaternário rudemente sincopado dos africanos e a amplificação da serranilha portuguesa. Ele compreendeu perfeitamente essa espécie de dialeto e apoderou-se dele como se fosse a melhor coisa do Brasil”14.

Com tais procedimentos estéticos, Gregório de Matos teria feito nascer uma forma própria de lidar com a língua portuguesa, fundamento de uma literatura brasileira. Assim se entende perfeitamente por que Araripe Júnior escolheu o quase inédito Gregório de Matos como patrono da cadeira 16 dessa Academia, em 1897. Além de escolher, Araripe Júnior construiu. Foi reunindo nos arquivos da instituição todas as cópias de manuscritos que conseguia encontrar, pensando numa edição das Obras Completas. Deixou o material como herança quando partiu, em 1911.

Aqui vale a pena seguir o rigor do ofício de historiador, dando prioridade ao correr do tempo cósmico das cadeiras sobre as questões literárias: como se verá a seu devido momento, certas questões relacionadas à cadeira 16 ficarão mais bem esclarecidas com esse caminho.

O sucessor de Araripe Júnior na cadeira 16 foi Félix Pacheco. Nascido em Teresina, no Piauí, em 1879, ainda adolescente descobriu sua identidade literária permanente, na leitura de Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Edgar Allan Poe e Valéry. O cronista Luiz Edmundo descreveu assim a figura, que se comportava como seus ídolos: “O jovem Félix alarmava o estreito meio literário com suas gravatas estapafúrdias, suas frases loucas e suas atitudes escandalosas”15.

Entre as atitudes do jovem boêmio que podem ser consideradas escandalosas, estava a de organizar uma homenagem aos 200 anos da morte de Gregório de Matos, quando tinha apenas 17 anos. Em 1899, com 20 anos, entrou para a redação do Jornal do Comércio. Luiz Edmundo descreve com bom humor a mudança em seu comportamento: “O jovem iconoclasta trocou o soneto de Baudelaire pela descrição do incêndio na Camisaria Lopes, a estrofe de Mallarmé ou Verlaine pelas façanhas de Manduca Colombo, conhecido assassino”16.

Fez carreira num anonimato que não terminou em 1906, quando se tornou diretor de redação. Sei na pele o que é isso. A regra do anonimato é a mesma que vivi por muitos anos escrevendo verbetes, é a mesma que se impôs Júlio Mesquita – para poder impor à redação -- o equivalente paulista de Félix Pacheco que biografei, era a mesma que seguiu Otávio Frias Filho, com quem convivi por alguns anos na Folha de S. Paulo, quase impedindo a carreira do excepcional escritor que foi. Pacheco convivia com a regra citando uma conhecida máxima de Paul Brulat: “O jornalismo leva a tudo, desde que se queira sair dele”.

Chegou à ABL sem sair do jornalismo, como notou Pedro Calmon em seu discurso de posse: “Nunca mais assinou artigos. Tinha a intuição do que fosse, num jornal moderno, a originalidade do folhetinista: quanto mais escondido, mais evidente”. Enfim, ficara notório pelo anonimato.

Empossado, Félix Pacheco não seguiu o conselho de Sousa Bandeira no discurso em que o recebeu na Academia, em 11 de maio de 1912; ele sugeriu que homenageasse Araripe Júnior com uma ida à Biblioteca Nacional para ler um códice de Gregório de Mattos que o antecessor não conseguira acessar. Mas é preciso dizer que outro simbolista e legista, Afrânio Peixoto, recebido na cadeira 7 por Araripe Júnior em 1910, não apenas seguiu o conselho como acabou organizando a primeira edição das Obras Completas de Gregório de Matos, a partir de 1923. Edição trabalhada e publicada pela Academia Brasileira de Letras, criando o corpus canônico que permitiu o estudo crítico daquilo que, até então, era ainda papel disperso.

Assim funciona essa casa que segue objetivos permanentes com seus ritos e suas cadeiras fixas. Quarenta anos depois do fim do ineditismo, os brasileiros podiam enfim ler os escritos do poeta escolhido como patrono da cadeira 16 – mesmo com as restrições impostas pela moral do tempo. Um curioso expediente foi necessário para completar o trabalho. As poesias eróticas ganharam apenas uma edição datilografada em duas vias, uma para a Biblioteca da Academia, outra para a Biblioteca Nacional.

Curiosamente, neste momento Félix Pacheco começou a aliviar a regra rígida de anonimato, dando continuidade àquela veia de juventude: desde o momento em que se tornou proprietário do Jornal do Comércio, em 1923, começou a se permitir nomear um diretor de redação e passou a ter tempo para ser escritor de obras assinadas, que editava em tiragens muito pequenas e distribuía como presente para amigos selecionados. Coisas como a primeira tradução de Baudelaire para o português ou estudos eruditos sobre os primeiros livros impressos no Brasil.

Foi sucedido na cadeira em 1936, por Pedro Calmon – que tinha uma longa relação com ela. Estava entre os muitos que ajudaram Afrânio Peixoto a organizar a publicação das Obras Completas de Gregório de Matos, quando era um jovem 30 anos – e já tinha publicado onze livros nas áreas de História e Direito.

Boa parte desse volume se explica por uma determinação pouco comum para a época. Assim como Félix Pacheco organizou sua vida em torno do jornalismo profissional, Pedro Calmon fez de tudo para ser um historiador profissional, num tempo em que o país não tinha universidades nem qualquer curso regular para formar profissionais na matéria.

Ainda assim, aproveitou a oportunidade para criar os caminhos possíveis. Veio de sua Bahia natal para o Rio de Janeiro como auxiliar de seu padrinho Miguel Calmon, nomeado ministro da Agricultura em 1922. Enquanto terminava os estudos de Direito, secretariou a Comissão do Centenário da Independência. Assim que se formou, prestou concurso para a função de Conservador do Museu Histórico Nacional, em 1925. Além de reformar a administração, criou a cadeira de História da Civilização Brasileira, que passou a chefiar. No ano seguinte foi aceito no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, instituição que acabaria tendo cargos de direção até o fim da vida.

Com tal base ele, pôde se dedicar à produção contínua de livros. Esse projeto coincidia com mudanças recentes, como notou Nayara Galeno do Vale: “A expansão do mercado editorial no Brasil se verifica nos anos 1930 e é acompanhada pelo surgimento de diversas casas editoriais e pelas transformações nos processos de produção dos livros. Seguindo essa linha foi lançado o livro História da Civilização Brasileira, de Pedro Calmon, no ano de 1933. A República começava a colher os frutos da alfabetização e da educação pública. Desenvolviam-se simultaneamente os públicos para o livro didático, outro mais sofisticado para os professores que ensinavam História – e tudo isso permitia o surgimento do historiador de nível superior que abastecia ambos”17.

Num notável ensaio sobre as fontes de História da Civilização Brasileira, o acadêmico Arno Wheling, além de notar a novidade no emprego de fontes como os inventários e testamentos, aponta: “A História da Civilização Brasileira tem muitos méritos. Pela síntese a que se propõe. Pela atualização face à época, recolhendo as inquietações modernistas, com uma nova interpretação do Brasil. Pelo uso pioneiro de conceitos e abordagem e pela afirmação de hipóteses mais tarde aprofundadas por outros pesquisadores. E, finalmente, pela leveza de estilo”18.

Pedro Calmon, tendo assumido a cadeira 16 em 1936, ocupou-a até 1985. Foram 49 anos de produção profícua, que resultaram numa obra composta por 53 livros, afora uma monumental profusão de discursos, artigos, capítulos. Como produtor de livros destinados a um público amplo, sou devedor direto do trabalho de Pedro Calmon, até hoje uma de minhas leituras favoritas. Frase curta, humor, profundidade, dispensa de demonstrações ornamentais de erudição, concentração da narrativa no tema são daquelas coisas que fazem merecer o tempo aplicado em correr as linhas. Mas sei: esta segunda parte do discurso deve ser aplicada à obra de meus antecessores, não a meus gostos pessoais.

Voltando ao registro que convém. Há uma questão paradoxal e invencível para fazer uma avaliação justa e breve da obra de Pedro Calmon, argutamente notada por Alesson Rota: “Ele pertenceu a uma vertente mais culturalista, sociológica e ensaística, ainda hoje pouco estudada. Por isso Pedro Calmon possui um lugar na história, mas não na historiografia: a revisão num estudo detalhado sobre ele e seus pares ainda está por ser feita”19.

Como os senhores não podem passar a noite aqui ouvindo uma tentativa de avaliar o gigantesco caudal que não está avaliado, apesar de precioso, concluo apenas dizendo que um dos últimos livros de Pedro Calmon foi “A Vida Espantosa de Gregório de Matos”, publicada em 1983. Nesse momento a obra do poeta já era muito estudada e divulgada fora da ABL, de modo que o estudo tinha como centro a divulgação de novas fontes primárias. Mas havia algo mais, que ele notava no prefácio: “Não é comum na Academia que o culto do patrono reúna, em família solidária, os ocupantes sucessivos de uma mesma cadeira azul”.

Verdade, mas fim. Chegara a hora da revolução cósmica na sequência de ligações com Gregório de Mattos e História na cadeira 16.

Assim Lygia Fagundes Telles começou seu discurso de posse nesta Academia: “No pequeno laboratório de química dos meus tempos ginasiais, aconteciam as mais extraordinárias experiências sob a inspiração do nosso professor. Lembro-me de que era um homem pálido e meio balofo, com a mesma cara secreta de um Buda de bronze que ficava na vitrine dos bibelôs da sala de visitas da minha mãe. Falava baixo esse professor. Enfática era a voz borbulhante dos tubos de ensaio com suas soluções que ferviam sob a chama da lamparina nas famosas aulas práticas. Os misteriosos tubos de ensaio com seus lentos vapores – as fumacinhas escapando das misturas de inesperadas colorações – e que podiam explodir de repente ao invés de darem uma vaga precipitação. Ah!, o suspense daquelas combinações. Só ele, o químico de avental branco, parecia não se impressionar com as intempestivas ocorrências ao longo da tosca mesa esfumaçada, com ares de uma oficina de bruxaria medieval. Costumava ele fazer no quadro-negro os seus cálculos e, em seguida, anunciava: “Vocês verão agora este líquido amarelo ficar azul.” E o líquido amarelo ficava vermelho. Certa manhã, ele chegou filosofante: “Vejam, meninas, na Química há sempre uma larga margem de imprevistos, como na vida, que também desobedece regras e leis...Vocês vão se lembrar disso mais tarde”.

E continuou: “A esse grão de imprevisto – o principal – fui juntando os acessórios: o acaso que reside nos pequenos acontecimentos fortuitos. E a loucura, o terceiro grão que compõe essa estupenda fórmula, anarquizando uma ciência com a nitidez da Matemática. Anarquizando a circunstância do homem e o próprio homem, esse mesmo homem que Pascal considerava tão “necessariamente louco, que não ser louco representaria uma outra forma de loucura”. A loucura, o acaso e o imprevisto desencadeando reações dentro do mesmo caldeirão. A fogo brando, para evitar o pior. Creio que foi sob a inspiração dessas combinações instigantes que me veio a ideia de fazer vibrar a corda tensa, de extremos aparentemente antagônicos: numa ponta, Gregório de Matos, o Patrono desta Cadeira 16. Na outra ponta, Pedro Calmon, o seu último ocupante”.

Em dois parágrafos, eis Lygia Fagundes Telles passando de uma festiva aula de química para a mesa da bruxaria medieval, ao fogo baixo alquímico. Em seu cozimento a graça é dada por uma larga margem de imprevistos, a Matemática anarquizada, o acaso, A experiência objetiva tornada irrelevante pelas sensações interiores que fazem a alegria da menina que fala pela boca da acadêmica. Pascal e a loucura. E assim, num pulo, se vencem também os séculos de história que separam Gregório de Calmon, estraçalhando as necessidades de um discurso formal de posse.

Senhores. Bem-vindos à monumental arte de construir amplíssimos universos com poucas palavras de Lygia Fagundes Telles– que ia bem mais longe que se possa imaginar. Li aqui o texto, mas nesse caso o texto era também a pessoa. O querido confrade Ignácio de Loyola dividiu com Lygia uma mesa em Frankfurt. O discurso dela começou nas regras da química alemã, até que a tradutora desmaiou. Seria êxtase? De qualquer forma, logo entra no palco um organizador germânico e anuncia a impossibilidade de a magia continuar. O público protesta. Então Lygia continua em português, sem tradução. Todos na plateia voltam ao estado de encantamento, como se nada tivesse acontecido. Aplausos monumentais ao final.

Era isso mesmo. Tive a excepcional felicidade de conviver com Lygia Fagundes Telles durante 14 anos na Academia Paulista de Letras. Era ela abrir a boca que a sala parava. Em segundos a combinação de planos metafísicos estava armada, e isso com uma prosa que soava informalíssima. E não era só. Os olhos brilhavam, os ouvidos de todos se abriam. Magia intensa presente.

Claro, essa grandeza não valia apenas para a pessoa, mas também para a escritora, a narradora. Em 1999, Lygia deu uma entrevista para a Revista Brasileira, a revista dessa casa. Não aqui neste prédio, mas no salão interno da Academia Paulista de Letras, que era quase a sala de estar de sua casa. Um espaço protegido, que permitia certa liberdade de expressão. E ela foi dizendo: “Separar literatura masculina e feminina seria bobagem, o que importa realmente é a qualidade. Há homens e mulheres que escrevem bem e homens e mulheres que escrevem mal. (...) Mas a literatura feminina tem características bastante nítidas: as mulheres são mais perceptivas que os homens”20.

Essa seria uma característica com história: “A mulher aprendeu a falar e escrever muito depois do homem. Isto principalmente no Brasil patriarcal, no qual a mulher ficou um tanto tempo reduzida a um ser calado, analfabeto e invisível. Ora, assim invisível ela foi ficando um bicho de sombra, dissimulado, astuto”21.

Esse tema da invisibilidade para as letras está presente nos romeiros mudos de minha infância, na música popular que dava voz à cultura analfabeta quando comecei a fazer registros escritos, à realidade que Gregório de Matos ousou colocar em letras. Mas em escala milenar e universal, não apenas secular e brasileira. Lygia Fagundes Telles criou um método tão próprio como seu ser para dar letras ao bicho de sombra: “Assim invisível ela foi desenvolvendo melhor a percepção. Repare num inseto mínimo subindo pelo tronco de uma árvore. As antenas vão adiante, palmilhando, informando. Nessas antenas está a aguda percepção à qual me refiro”.

Dessa percepção antenada ela arrancou uma palavra elevada: “As mulheres privadas de liberdade se alçaram em pitonisas e sacerdotisas, desvendando o futuro através da intuição, da premonição. Com isso provocaram o medo. Toda advinha não tem mesmo parte com o diabo? Fogo para as bruxas. Com o movimento da equiparação dos sexos ela foi perdendo o mistério desses dons tão nítidos. Mas ficou-lhe o dom de vislumbrar. A vidência. Quando ela começou a escrever, a se explicar, tinha de ser na linguagem confessional. A linguagem intimista, subjetiva, o mergulho no interior do eu. Ah, que alívio! A libertação através da palavra escrita”22.

Essa libertação pela palavra exige uma disciplina psíquica gigante: “Acho que sou duas, a social e a outra. A social é a que se disfarça para cumprir sua tarefa da melhor forma possível, a outra que fica em casa é a escritora. A social colhe coisas lá fora para a outra, é a informante. A espiã. No texto Misterium há a história de uma sopa que simboliza a própria criação literária. Essa sopa era feita num enorme caldeirão no fogão de lenha, era a sopa que Matilde fazia. Minha mãe queria demais essa receita que a empregada se recusava a dar e por isso me mandou espionar. O que aquela Matilde de carapinha tosada e mascando fumo tacava naquele caldeirão para sair uma sopa assim tão extraordinária? E continuou o mistério, fugi esbaforida da cozinha porque descobri que a sopa não tinha receita porque a Matilde era louca, completamente louca. Aquela menina da infância já era a espiã recolhendo informações para a outra, que ficou esperando”23.

Repetindo o cozimento da sopa em fogo lento no caldeirão, Lygia Fagundes Telles construiu um cardápio literário que vai muito além do universo costumeiro da escrita, como notou Vera Maria Tietzmann Silva: “Na obra ficcional de Lygia Fagundes Telles constituem o mitoestilo a predominância do tema da metamorfose, as imagens características, como o jardim, a fonte, a estátua, o anão e outras mais; a preferência por determinadas cores e nomes próprios que se repetem; a insistência de gestos comuns a certos personagens em situações análogas; a presença de certos animais no elenco dos personagens ou nas metáforas; o recurso da descrição paralela; a coexistência de diversos planos temporais numa temporalidade única, que é a uma só vez presente, passado e futuro”24.

A característica central da obra constituída como mitoestilo seria uma universalidade que pairaria inclusive acima das traduções – coisa para gente como Homero, Virgílio, Camões, Edgar Allan Poe, só para ficar nas comparações que ela emprega. Uma magia capaz de empolgar auditórios na Alemanha ou gerar traduções para oito línguas ainda em vida da autora – afora centenas de teses ou estudos sobre a obra.

Entender a distância que separa a narração que mistura cotidiano e mito, realidade e imaginação, é trafegar no infinito das duas Lygias, levado pelas letras da terceira, a escritora. O que traz de volta o velho e bom problema de sempre: como preciso concluir a segunda parte desse discurso de três partes, sou obrigado a reduzir tudo ao ponto comum entre a estrutura deste rito de passagem específico que estamos celebrando, toda baseada em três partes, com uma visão dessa estrutura tripla que une as duas partes numa narradora, tentando amplificá-la a partir de um único ponto do amplo universo ficcional de Lygia Fagundes Telles.

Começo chamando a atenção para um detalhe particular acrescentado por uma tradutora a um universal de Lygia. “As Meninas”, em inglês, se tornaram “The Girls on the Photography”. O acréscimo reduz o foco geral do título em português e remete diretamente ao seguinte trecho do romance, no qual aparece a tal fotografia:

Acertou no canto do espelho o pequeno flagrante que a Irmã Clotilde tirara no portão: ela no meio de Ana Clara e Lia, as três rindo, A pirâmide. A poeta H.H. descreveu-a: Dentro do prisma a base, o vértice de suas três pirâmides contínuas”25.

A estrutura em tríade também gerou o título que sintetiza a tese de Isabel de Sousa Santos: “A Tríade Feminina, a Cristianização da Morte Sacrificial”. O argumento é esse: “É ratificado por uma declaração de Lorena: “Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos farão plenos e verdadeiros”. E ainda: “Disse [Lia] que não há morte definitiva [...]. Que morte e vida se integram e se completam tão perfeitas como um círculo [...] a vida precisa da morte para viver. O sentido da morte para Lia, que se diz materialista, é o mesmo que para o homem arcaico, pois, na consciência de ambos, a morte é necessária devido à sua força fecundante e graças ao movimento circular de morte-renascimento”26.

Aqui duas referências de tempo se somam: a mulher materialista do presente e o homem arcaico vivem o círculo de três fases, vida, morte e renascimento. E assim chego ao momento de retornar ao tema inicial, o círculo que este ritual de reposição cósmica que fazemos celebra – ritual com estrutura tão milenar quanto o silêncio sobre o feminino rompido pelas palavras de Lygia Fagundes Telles. Mircea Eliade a descreve assim a origem no tempo deste ritual: “A fertilidade da terra é solidária com a fecundidade feminina; consequentemente as mulheres tornam-se responsáveis pela abundância da colheita, por conhecem o mistério da criação. Vamos encontrar continuamente ideias religiosas e encenações rituais desses mistérios, pois a criatividade religiosa não foi despertada pela agricultura, mas pelo mistério do nascimento, da morte e do renascimento”27.

A versão da fertilidade resultante do mistério da criação como sendo feminina remete a um tempo muito antigo, o tempo do inseto com antenas da mulher Lygia, assim descrito por Demetra George: “Nix, cujo nome literalmente significa noite, foi reverenciada por seus poderes oraculares. Ela podia ver além da noite do presente a partir de uma caverna de onde se apresentava de forma tripla como Noite, Ordem e Justiça. Regeu o universo até seu poder passar para Urano, marcando a chegada dos deuses patriarcais”28.

O fim dsse tempo de reinado da mulher com poderes espirituais porque fonte da abundância, esse tempo dos rituais triádicos do mistério do ciclo de nascimento, morte e renascimento, ganhou outro registro no regime patriarcal, inteiramente negativo para a expressão espiritual da mulher. Beatriz Bracher, em “Anatomia do Paraíso”, mostra o que surgiu com a inversão para o domínio masculino sobre o feminino, na figura de uma deusa: “Pecado, nascida de uma dor de cabeça de Lúcifer. Atena, nascida de uma dor de cabeça de Zeus. Mulheres – dor de cabeça. Mulheres – dor de cabeça. Mulheres que são cuspidas cabeça afora”. No lugar da fertilidade e do mistério, o espaço religioso da mulher no mundo patriarcal passa a ser outro: “Pecado, nascida deusa armada, agora é um monstro irreconhecível, metade réptil metade mulher”29.

Lygia Fagundes Telles, consciente da inevitável condição de bruxa da narradora feminina, tinha uma definição interessante do processo de recuperar a forma do feminino pela palavra, rompendo a escuridão milenar: “Combinei com uma amiga, a Hilda Hist, que quando ficarmos velhas vamos bordar juntas as nossas almofadas. As mulheres com suas agulhas de crochê e tricô armando verdadeiras teias que fazem parte do comportamento feminino. Impossibilitada de seguir seu caminho, ela se vale da agulha num artesanato ambíguo de realização. É a mulher desde sempre tentando se dizer. Em As Meninas uma das personagens diz: “Antes eram os homens que nos explicavam, agora somos nós”30.

Mas, entre as mulheres que tecem, estavam também aquelas que, milenarmente, decidiam o destino até mesmo das maiores tecelãs. As deusas do primeiro tempo, o tempo anterior a Urano, tinham muitas vezes a forma tripla. Nix, a noite, gerou três trios de filhas. O último deles ficou mais conhecido pelo tecido produzido que pela tecelagem: Moira. Na verdade, eram três as tecelãs da Moira: Cloto, a fiandeira, Laquesis, a mediadora; Átropos, a cortadora. Nas palavras de Demetra George: “As moiras triplas correspondem às três fases da lua, às três estações do ano (primavera, verão e inverno) e aos três estágios da vida de uma pessoa. A extensão do fio era inteiramente decidida por elas, e uma vez tecido era irrevogável e nem mesmo Zeus podia ir contra seus decretos”31.

No mundo romano ganharam as denominações de Nona, Décima e Última. E seu decreto se cumpriu também para Lygia Fagundes Telles. Para a cadeira 16. E para mim, cujo tempo nessa cadeira vai começar em breve.

Chega então a hora de entrar na terceira e última parte deste discurso ritual, cujo entendimento por nós, materialistas do tempo presente, ganha outra luz quando se entende a estrutura de profundidade temporal milenar dos ritos de passagem, escolhidos como tema deste discurso, também muito por causa de seu papel estruturante da obra de Lygia Fagundes Telles.

O “Brasileira” do nome desta academia não se refere nem à língua, que é a portuguesa, nem à literatura, o uso mais nobre desta língua. Refere-se, isso sim, a o uso delas num espaço social. E a representação linguística dessa realidade social tem, inevitavelmente, natureza polissêmica.

Começando pelo substantivo, “Brasil”. Para relembrar Sergio Buarque de Holanda, o termo tem origem celta e já estava gravado como designação própria de um território num mapa de 1347. Seria uma das Ilhas Afortunadas, as ilhas nas quais um dos trios de filhas de Nix, as Hespérides, guardavam a árvore das maçãs de ouro do Paraíso – sim, aquela para a qual, na versão hebraica do mito, a serpente teria conduzido o casal humano.

Ao longo do século 16, os obnubilados que perdiam a consciência antiga no contato essa terra que era nova para eles, empregaram o nome para designar um território de conquista e uma madeira de comércio. Na segunda metade do século 17, juntamente com o surgimento de uma narrativa centrada no que este território teria de próprio, como já vimos com Araripe Junior analisando Gregório de Mattos, começou o emprego do gentílico brasileiro.

A fixação de um Estado com seus atributos de teoria política, isto é, leis próprias, domínio do território e monopólio do uso legal da força, aconteceu apenas no século 19, estruturando um emprego do termo para designar um país e dando início ao processo cultural de formação de uma identidade entre governo e sociedade, propriamente denominada identidade nacional.

A diferença de camadas de significado histórico num único substantivo, gera ainda hoje muita confusão, quando se trata de lidar com o adjetivo “Brasileira” no campo cultural. Um exemplo muito recente dessa confusão aparece num texto de 2011 de Alcir Pécora. Ele analisa as posições divergentes de Haroldo de Campos, que queria Gregório de Matos como fundador da literatura brasileira, e Antônio Candido, que coloca essa fundação no século 18. Eis o trecho:

Tudo certo, não fosse contradição (num texto que critica o romantismo nacionalista de Candido): a reivindicação do barroco como "nosso" e de Gregório como precursor da "comicidade malandra" em nossa literatura" ou como "primeiro antropófago experimental da nossa poesia". Entre excluir o barroco do estudo sob a alegação de estar ausente da formação nacional, e incluí-lo, como antecipação do nacional, qual é pior? Difícil e vã escolha”32.

Vamos lá. “Nosso” é apresentado em função de “nacional”. Assim se confunde um pronome que pode se referir a qualquer um dos sentidos de “brasileira”, do original celta ao estatal atual – sem gerar escolhas dicotômicas como as apresentadas.

Para entender melhor a confusão, vale a pena citar outro caso contemporâneo. Em 2013, João Adolfo Hansen, que editou a obra de Gregório de Matos com o título-provocação “Para que todos entendais”, escreveu para justificar a escolha: “A revisão que fazemos visa construir uma história da crítica textual no Brasil que evidencie a historicidade da prática filológica, especificando os anacronismos reproduzidos nas histórias literárias brasileiras”33.

O termo anacronismo é daqueles que provoca um historiador. Como muitos aqui sabem, ele é usualmente definido como atribuição a uma época de termos que são de outra. Seu emprego neste trecho que trata de crítica literária poderia parecer um reforço ao argumento de Pécora, não fosse o valor diverso no tempo de cada significado de “Brasileira”.

Como denominação de um território, como gentílico e como realidade cultural, substantivo e adjetivo já circulavam nos tempos de Gregório de Mattos. Em qualquer desses sentidos podem ser corretamente empregados por analistas para discorrer sobre um momento fundador. Tentar empregar uma acepção posterior, a designação do país ou da Nação como limite temporal, é apenas fazer confusão. O emprego incorreto de um conceito historiográfico é desculpável para um crítico literário interessado em reduzir significados em benefício de sua tentativa de especializar. Mas ajuda muito pouco a entender as opções históricas desta Academia no entendimento de “Brasileira”.

Em 1989, com a publicação de “O Sequestro do Barroco”, Haroldo de Campos foi o estudioso de literatura que elevou Gregório de Matos ao ponto canônico de fundador da literatura brasileira. Entendendo a obra do poeta no mesmo sentido de Araripe Júnior um século antes: como expressão particular de escrita do português, mas já própria e diferenciada em sua estrutura.

Sim, o cânone que esta casa busca cultuar se move. E acompanhar este movimento com os rituais cósmicos e sociais, que caracterizam a vida da Academia Brasileira de Letras, faz sentido. Desde a nascente, já na polêmica interna entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco, o rumo dado pelas escolhas para ocupação das cadeiras tem sido aquele de abrigar na casa não apenas os literatos e especialistas em língua, mas a pessoas de todas as áreas que possam revelar algo relevante sobre o uso particular da língua por brasileiros, que está por trás de toda a conceituação de Araripe Júnior e Haroldo de Campos.

O foco, assim, vai para as relações entre língua normatizada e seu uso por uma sociedade. Para um balanço. E a manutenção deste balanço através de um vocabulário reconhecido canonicamente é a missão central da Academia Brasileira de Letras.

Essa missão é uma missão cósmica, não normativa nem teórica. Não se cumpre por decretos, mas pela alquimia de cada dia nas acomodações entre o falar e o escrever. Basta uma rememoração dos caminhos seguidos por cada ocupante anterior da cadeira 16 para entender que, na história brasileira, o balanço entre fala e escrita exigiu a criação de instrumentos próprios de ajuste, que vão muito além da escrita. Gregório de Matos empregou o violão, Araripe Júnior buscou os relatos de viajantes e o folclore, Félix Pacheco teve de se render ao texto anônimo da reportagem policial, Pedro Calmon foi buscar História nas fontes da vida cotidiana. E claro, o inseto espião que era uma das metades de Lygia Fagundes Telles trazia para a casa o material que a outra precisava para criar suas monumentais receitas miotestilísticas.

A razão fundamental para buscar acomodação imperiosamente na fonte da oralidade e do comportamento popular é singela. A sociedade brasileira se construiu como sociedade analfabeta. Só em 1998 o presidente Fernando Henrique Cardoso pôde concluir a obra de colocar todas as crianças na escola. Só muito modestamente essa mudança é visível hoje. Se, em minha infância, os romeiros eram objetos mudos sobre os quais só podia aprender por antenas de inseto, hoje os esfomeados do covid se comunicam por cartazes quando desfilam nos intervalos do sinal fechado ou nas calçadas:” Estou com fome e desempregado”; “Ajude a realizar meu sonho de fazer faculdade”; “tenho prestações atrasadas e cinco filhos para sustentar”.

Tudo que veio antes para tanta gente brasileira não pode ser transformado em textos escritos na primeira pessoa até esses alfabetizados precários, nem muito menos foi fácil de ser colocado em narrativas literárias. E isso não vale só para a literatura. Dou aqui um exemplo muito grande e muito breve, em outra área de conhecimento.

Todo mundo sabe o que é o fiado, a compra registrada na caderneta do armazém. Pois bem. Fazendo a pesquisa para escrever a biografia do padre Guilherme Pompeu de Almeida, consegui juntar fragmentos para montar uma cadeia de fiado de grande escala do século 17. Grande em mais de um sentido: imensos volumes de capital e mercadorias, uma rede de recebedores que ligava o titular de uma capela em Araçariguama, que nunca viajava, a Buenos Aires, Assunção, Curitiba, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Salvador e Lisboa. Tudo fiado.

Sendo o fiado a regra que organizava os negócios econômicos tanto da venda local como dos grandes fluxos internacionais de capital, tive uma ideia óbvia: ir atrás dos livros que falassem do assunto. A frustração foi crescente. Não tinha nenhum em minha biblioteca, não achei nenhum nos sebos e livrarias, continuei sem nada pesquisando nos índices de bibliotecas – pois naquele tempo nem todos estavam na rede. Chegou o ponto em que vim ao Rio de Janeiro para pesquisar na Biblioteca Nacional. Percorri todos os índices e só achei o termo no título de um manuscrito do século 16 – com um sentido metafórico.

Pois bem, senhores. Pensem no problema pelo lado contrário. Um erudito monumental em economia, que tenha lido todos os títulos da biblioteca de sua faculdade, não terá absolutamente nenhuma informação sobre o mais básico, mais essencial e mais amplo mecanismo institucional da história econômica brasileira.

Sim. O analfabetismo, aplicado a Brasil, é uma via de mão dupla. Se alguns não conhecem por falta de escrita, outros não conhecem por falta de haver o que ler sobre o comportamento das pessoas. E é essa discrepância gigantesca que a atitude de abertura da Academia Brasileira de Letras permite que se possa sonhar em cobrir ao longo do tempo – com ajuda dos instrumentos inovadores daqueles que se dispõem a empregar o contato pessoal, para fugir das limitações tanto da ausência da palavra escrita quanto da erudição livresca vazia de sentidos locais, para entender “Brasileira”. Que trazem para a palavra escrita o que circula apenas nas milenares linguagens simbólicas que empregamos.

Sete anos atrás, em 2015, ousei uma tentativa nesse sentido de cobrir distâncias. O pequeno artigo “Teoria do Valor Tupinambá” busca expressar na linguagem conceitual da economia uma concepção da relação entre natureza e produção econômica, na forma como foi expressa por um chefe tupinambá, circa 1557 para Jéan de Lery, membro do primeiro grupo de protestantes a pisar na América. Como pastor, ele escreveu as piores danações contra seres que lhes pareceram animais ferozes e descendentes dos filhos danados de Caim.

Mesmo assim acabou deixando um dos mais detalhados relatos das concepções econômicas de um desses animais. De maneira brutalmente reduzida, diria que este chefe pregava um limite para aquilo que o homem arranca da natureza, pois isso levaria à destruição de todos. Nesse caso, valem bem hoje as perguntas: quem é o analfabeto? Quem ensina sobre Brasil? Quem conhece melhor os caminhos para o futuro?

As trocas de conhecimento entre pessoas que empregam linguagens diferentes só podem acontecer se houver uma estrutura de equiparação mais ampla, capaz de permitir a tradução de conhecimento oral para a palavra escrita e seus limites gramaticais.

Empreguei, para juntar as três partes deste discurso, uma estrutura milenar desta natureza, aquela do rito organizado para ligar dois mundos pela travessia ritual de um limiar, que estamos praticando aqui.

Vejam bem, senhores: a Academia Brasileira de Letras possui uma gramática de funcionamento que não é exatamente teórica nem normativa, mas ritual.

Concluindo agora, volto a dizer que estou aqui não apenas porque tenho uma obra, mas para repor o desequilíbrio cósmico surgido com a imortalização da obra de Lygia Fagundes Telles, algo que não tem nada a ver com literatura, língua ou Brasil.

E transformei essa estrutura ritual em tema, para tentar deixar mais claro que o Brasil tem também uma cultura na qual as funções rituais, as linguagens simbólicas necessárias para reprocessar as identidades econômicas, estão ainda presentes, dado o peso secular do analfabetismo, que impede trocas escritas entre pessoas, ou a estigmatização da mulher, que faz o mesmo dano nas trocas escritas entre gêneros. Apenas os ritos de passagem permitem renovar a consciência para vencer essas dificuldades, ao preço da obnubilação.

Esta Academia Brasileira de Letras, organizada em torno de ritos milenares, tem a capacidade e teve a sabedoria de manter o caminho aberto. Trouxe recentemente mestres de outras linguagens, como Cacá Diegues, Gilberto Gil e Fernanda Montenegro. Um convite para trocas mais ricas, seguindo as lições da imensidade da obra de Lygia Fagundes Telles, Pedro Calmon, Félix Pacheco, Araripe Júnior e Gregório de Matos.

Para me integrar ritualmente nessa instituição que me aceitou, eis-me aqui de fardão. E como gostaria de terminar o primeiro terço desse ritual de passagem com essas trocas amplas de símbolos, evoco Aylton Krenak, que consegue a grandeza de escrever suas lições milenares na língua estrangeira para ele que é o português:

Quando alguém te convida para uma festa cósmica, você vai com alegria”.

 

Aqui estou

1 Gannep, Arnold Van. The Rites of Passage (1909). Chicago, The University of Chicago Press, 1960, p.3

2 idem

3 Idem, p.4

4 Idem, p.11

6 Coutinho, Afrânio (org.). Obra Crítica de Araripe Júnior, vol 1. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Casa de Rui Barbosa, p. 494

 

7 id

8 Coutinho, Afrânio (org.). Obra Crítica de Araripe Júnior, vol 1. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Casa de Rui Barbosa, p. 497

9 Coutinho, Afrânio (org.). Obra Crítica de Araripe Júnior, vol 2. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Casa de Rui Barbosa, p. 490

 

10 Coutinho, Afrânio (org.). Obra Crítica de Araripe Júnior, vol 2. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Casa de Rui Barbosa, p. 414

11 Idem, 413

12 Idem, 412

13 Idem 474

14 Idem, 475

15 In Santarrita, Marcos. Félix Pacheco. ABL/Imprensa Oficial, coleção Série Essencial, p. 8

16 Id, p 10

17 NAYARA GALENO DO VALE. “UM RETRATO INTEIRIÇO E HARMÔNICO DA NAÇÃO”: IDENTIDADE DO

HISTORIADOR E ESCRITA DA HISTÓRIA DO BRASIL NA OBRA DE PEDRO CALMON,, Tese de doutorado, universidade de Niterói, p. 103

18 Wehling, Arno. Apresentação. In: Calmon Pedro, História da Civilização Brasileira. Senado Federal, Barsília, 2002, p 23

19 ALESSON RAMON ROTA. PEDRO CALMON: COM LUGAR NA HISTÓRIA, SEM LUGAR NA HISTORIOGRAFIA. Anpuh XXIX, p. 9

 

20 Revista brasileira, agosto/setembro 1999, pp. 33/4

21 Id, p.34

22 Id 35

23 Id, p.39

24 VERA MARIA TIETZMAN SILVA. A METAMORFOSE EM LYGIA: PROCESSOS DE METAMORFOSE NOS CONTOS DE LYGIA FAGUNDES TELLES. Dissertação de Mestrado, Universidade de Goiás, p.35

25 Na edição de 2022 da Cia. Das Letras, p. 104

26 ISABEL DE SOUZA SANTOS. A MORTE SACRIFICAL NA FICÇÃO DE LYGIA FAGUNDES TELLES. Doutorado, 2009, universidade goiás, p.120

27 Eliade, Mircea, História das Crenças e Ideias Religiosas, v.I. Rio de Janeiro, Zahar, 2010, pp.50-1

28 George, Demetra, Os Mistérios da Lua Negra. São Paulo, Pensamento, 2021, p. 148

29 Beatriz Bracher, Anatomin do Paraíso. São Paulo, 34 letras, p. 14

30 Revista ABL, p.35

31 Demetra george, op. Cit., p 168

32

33 Poesia atribuída a Gregório de Mattos e Guerra, volume 5. Belo }Horizonte, Autêntica, v5, p 11