No Jardim América, em Goiânia, um endereço discreto guarda uma das histórias mais simbólicas da literatura brasileira e agora será um museu. Na Rua C-237, a casa onde viveu Bernardo Élis passa por um cuidadoso processo de restauro. Mais do que uma obra física, a intervenção representa um reencontro de Goiás com a própria memória cultural.
O imóvel, construído em 1974, foi o último lar do escritor e de sua esposa, a escritora e artista plástica Maria Carmelita Fleury Curado. Hoje, abriga a sede do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (ICEBE). Ali, entre paredes, livros e objetos, estão preservados fragmentos da vida do único goiano a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
Nascido em Corumbá de Goiás, em 1915, Bernardo Élis construiu uma trajetória marcada pela defesa da cultura, da literatura e do Cerrado. Advogado, professor, poeta, contista e romancista, deixou uma obra que atravessa gerações. Assim, quase três décadas após sua morte, a casa onde produziu parte desse legado entra em uma nova fase, voltada à preservação e à reinvenção de seu papel cultural.
Restauro une preservação, segurança e novos usos
A obra é executada pela Elysium Sociedade Cultural, instituição com mais de 35 anos de experiência no restauro de edificações históricas em diferentes regiões do país. Em Goiânia, o projeto é viabilizado por recursos da Lei Goyazes 2025, mecanismo de incentivo que tem possibilitado a recuperação de patrimônios culturais no Estado. As intervenções começaram em dezembro de 2025 e têm previsão de conclusão em maio de 2026.
Segundo o ICEBE, o imóvel apresentava problemas estruturais graves, como risco de desabamento do telhado, pintura deteriorada e madeiramento comprometido por cupins. Por isso, a intervenção contempla tanto a recuperação estética quanto o reforço da segurança, sempre respeitando as características originais da residência.
À frente do planejamento técnico está o engenheiro civil Pedro Carim. Ele explica que o trabalho combina diferentes abordagens. “É uma mescla entre restauro, conservação e reabilitação. Preservamos elementos históricos, melhoramos a vida útil do imóvel e, ao mesmo tempo, adaptamos os espaços às necessidades atuais do Instituto”, resume.
Além disso, por ser financiado por lei de incentivo, o projeto segue critérios rigorosos de transparência, controle orçamentário e finalidade cultural. O foco é garantir que o espaço continue cumprindo sua função social, educativa e simbólica.
Um hub cultural vivo no coração de Goiânia
Mais do que um museu tradicional, a Casa-Museu Bernardo Élis funciona como um verdadeiro hub cultural. O modelo se inspira em experiências consolidadas no Brasil e no exterior, como as casas de Jorge Amado, Gilberto Freyre, Cora Coralina e Pablo Neruda.
O acervo impressiona. São cerca de 200 objetos pessoais, toda a produção literária do autor, uma biblioteca com aproximadamente seis mil volumes e uma pinacoteca com 40 obras assinadas por nomes importantes das artes visuais. Entre os itens mais simbólicos está o fardão da Academia Brasileira de Letras, que reforça a dimensão nacional do legado de Bernardo Élis.
O espaço é dividido em dois pavimentos e um anexo. Há salas de exposição, biblioteca, áreas administrativas, espaços para palestras e pesquisa, além de pátios internos e externos. Após o restauro, a proposta é ampliar o acesso da comunidade e intensificar atividades como visitas guiadas gratuitas, saraus, residências culturais e ações educativas.
Serviço
Casa-Museu Bernardo Élis (ICEBE)
– Endereço: Rua C-237, Jardim América – Goiânia
– Previsão de reabertura: após maio de 2026
– Atividades: visitas guiadas, palestras, saraus e pesquisa
Matéria na íntegra: https://curtamais.com.br/goiania/museu-academia-brasileira-de-letras/
12/02/2026