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ABL na mídia - O Globo - Edgard Telles Ribeiro exalta ABL em sua posse: 'Sempre atenta ao que de relevante e original exista entre nós'

 

O diplomata e escritor Edgard Telles Ribeiro tomou posse na Academia Brasileira de Letras na noite de sexta-feira (4), em cerimônia realizada na sede da instituição, no Centro do Rio. Ele agora ocupa oficialmente a cadeira 27, sucedendo o poeta e filósofo Antonio Cicero, morto em outubro passado.

— Longe de indiferente ao que sucede em seu entorno, a Academia, pelo simples fato de existir (e, por vezes, resistir) atua em tantas frentes, representando um dos principais baluartes de reflexão sobre o que a cultura brasileira possa significar hoje, para além de nosso engenho e arte, do idioma e suas riquezas, até mesmo de nossa imaginação. E, porque não confessar, de nossos justificados receios — disse Ribeiro.

Ribeiro nasceu em Valparaíso, no Chile, em 1944, filho de diplomata brasileiro e, portanto, cidadão do Brasil. Sua trajetória se divide entre o cinema, a literatura e a diplomacia. Iniciou sua carreira como crítico de filmes no Correio da Manhã do Rio. Estudou cinema na Universidade da Califórnia (UCLA). Em 1970, seu filme "Vietnam, viagem no tempo" foi exibido na Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes.

Entre 1978 e 1982 foi professor de cinema na UNB. Entre romances e coletâneas de contos, Ribeiro publicou 15 livros, como “O criado-mudo”, "O impostor”, “As larvas azuis da Amazônia”. Já "O punho e a renda" (Record), de 2014, que narra os bastidores das embaixadas durante a ditadura militar brasileira, conquistou o Prêmio de Melhor Romance do Pen Clube em 2011.

Seu romance "Olho de rei" (Record), com as memórias inventadas de um imigrante francês que vira garçom da Confeitaria Colombo e abre um bar no Rio, recebeu o Prêmio da Academia Brasileira de Letras para Melhor Obra de Ficção de 2006. A sua obra mais recente é o romance “Jogo de armar” (Todavia), de 2023.

O diplomata comparou a ABL ao Itamaraty, onde atuou por quase 50 anos. Assim como o Itamaraty, afirmou Ribeiro, a ABL se dedica a "pensar o Brasil".

— Sempre atenta ao que de relevante e original exista entre nós — disse ele, que serviu como diplomata nos Estados Unidos, Equador e Guatemala; e como embaixador na Nova Zelândia, Malásia e Tailândia.— Sempre fazendo dessa base de conhecimento um trampolim para o que de mais autêntico possa ser mostrado e debatido, seja no país, no caso da ABL, seja no exterior, em se tratando do Ministério das Relações Exteriores.

O novo imortal ressaltou que, desde cedo, conviveu de perto com ex-membros da ABL que foram amigos de seu pai - o também diplomata Milton Telles Ribeiro - como o filólogo Antonio Houaiss e o poeta João Cabral de Melo Neto. E homenageou o antigo ocupante de sua cadeira, Antonio Cicero.

— Nisso, minha adolescência se assemelha um pouco à de meu antecessor, Antonio Cicero, que registrou em seu discurso de posse a admiração que nutria pelos intelectuais amigos de seu pai, de cujas conversas participava, delas retirando lições que balizariam sua vida e sua obra.

Ribeiro contou que teve "raros contatos" com Antonio Cicero. Ainda assim, pode conhecer o seu "espírito nobre" e sua "delicadeza no trato".

— Sensação de delicadeza que se repetiria aqui na Academia, nas vezes em que trocamos algumas frases, sempre ricas em pausas solenes — disse Ribeiro. — As mesmas pausas que reencontro quando releio alguns de seus poemas.

Ruy Castro fez discurso de recepção

O novo acadêmico foi recebido pelo escritor e jornalista Ruy Castro, que em seu discurso de recepção destacou a brasilidade de Ribeiro.

— O fato de só ter vindo ao Brasil aos cinco anos de idade, em 1950, e partido dele aos oito, em 1953, não lhe sonega um minuto de brasilidade e carioquice — disse Ruy. — Foi no Leme, de calças curtas, que se alfabetizou. Jogou pelada e bola de gude nas suas ruas, fez amigos eternos que, por força das circunstâncias, nunca mais viu, e acompanhou com grande interesse as meninas que pulavam amarelinha na calçada.

Ruy analisou ainda a obra literária de Ribeiro, que, assim como o diplomata, desprezam as fronteiras geográficas.

— A exemplo de Edgard, a maioria de seus personagens desafia os espaços, desloca-se incessantemente e atravessa fronteiras que, vai-se versão imaginárias — disse o acadêmico. — A ação em seus livros muda de país, atravessa oceanos reais ou virtuais, regride ou parece se estabilizar, mas, quando menos se espera, já está em outra parte. Desconhece também as fronteiras do tempo. Mudam os narradores, mudam as vozes, muitas vezes sem rubricas para explicar quem está falando.

Edgard Telles Ribeiro vestiu um fardão confeccionado pela estilista Julia Parker. É a primeira vez em 35 anos — e apenas a segunda nos 127 anos de ABL — que uma mulher assina o "uniforme" oficial de um acadêmico. Antes de Parker, a costureira popular Edite Minervina havia sido responsável pelo fardão usado em 1990 por Ariano Suassuna em sua posse na ABL.

— Eu me sinto muito honrada de ser apenas a segunda mulher nessa lista — diz Parker. — Entendo que esse é um trabalho normalmente feito por alfaiates, com uma tradição de anos. E existem pouquíssimas alfaiates mulheres. O trabalho tirou toda minha equipe da zona de conforto. Mas, no final, quando vimos o fardão pronto e entregue, de um orgulho enorme de missão cumprida.

O presidente da ABL, Merval Pereira, lembra que, além de um diplomata de carreira, Edgard já escreveu diversos livros sobre a Ditadura Militar como pano de fundo, como o romance "O punho e a renda".

— Edgard foi eleito por ser um romancista, e não um diplomata, mas como diplomata também trabalhou na área cultural, inclusive com o (então Ministro da Cultura) Gilberto Gil — diz Merval. — Ele tem mais essa vantagem para a Academia, a experiência com a política cultural que vai nos ajudar muito.

Matéria na íntegra: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/04/04/edgard-telles-ribeiro-exalta-abl-em-sua-posse-sempre-atenta-ao-que-de-relevante-e-original-exista-entre-nos.ghtml

05/04/2025